Pianista, cantor, compositor e produtor musical de Feira de Santana, na Bahia, Tito Pereira transforma sentimentos, memórias e referências afro-diaspóricas em uma sonoridade marcada pela identidade e pela liberdade de criação. Para ele, fazer música ultrapassa os limites de uma profissão: é uma forma espiritual de existir no mundo.
A ligação de Tito Pereira com os sons começou ainda na primeira infância. Segundo relatos dos próprios pais, antes mesmo de completar um ano, já demonstrava uma aproximação especial com a musicalidade. Aos 10 anos, deu os primeiros passos com a flauta doce do pai. Quatro anos depois, ganhou o primeiro teclado e passou a ampliar, de maneira cada vez mais intensa, sua relação com a arte.
Foi a partir dessas experiências que nasceu uma trajetória construída entre composição, interpretação, arranjos, produção e pesquisa sonora.
UM JAZZ COM TEMPERO BAIANO
Entre suas primeiras experiências de maior projeção está o Ânima Trio, grupo homônimo do disco no qual Tito registrou composições autorais que conquistaram espaço entre o público baiano. Na obra, o artista também assumiu a direção musical, os arranjos, o piano e o canto.
Sua concepção artística parte do encontro entre diferentes matrizes. O jazz ganha novos contornos quando atravessado pelos ritmos afro-baianos presentes no cotidiano cultural da Bahia.
Para Tito, a música afrodiaspórica constitui uma das bases fundamentais da produção musical baiana. É justamente nesse território de ancestralidade e contemporaneidade que o artista encontra elementos para desenvolver sua linguagem.
QUANDO A ARTE SE TORNA EXISTÊNCIA
A caminhada artística também trouxe obstáculos. Houve períodos em que sua relação com a música foi colocada à prova, mas jamais a ponto de fazê-lo abandonar o caminho escolhido.
A razão está no significado que atribui à própria arte. Mais do que uma atividade profissional, tocar, cantar e compor representam uma maneira de expressar aquilo que existe em seu universo interior.
A palavra que melhor define sua permanência nessa jornada é amor. É esse sentimento que o impulsiona a criar, experimentar novas possibilidades e acreditar no poder transformador da música.
ÁFRICA, CORES E NOVOS HORIZONTES
A África ocupa um lugar especial no imaginário artístico de Tito Pereira. Fascinado pelas cores, pela força expressiva e pela riqueza cultural do continente, ele encontra nessas referências inspiração para seus improvisos e interpretações.
Entre os próximos objetivos está a continuidade da carreira nos palcos e nos estúdios. Depois de vivenciar a experiência de se apresentar no Festival de Jazz do Capão, no ano passado, o músico alimenta novos desejos: levar sua produção para Angola, Europa e outros palcos internacionais.
Mais do que viajar com sua obra, a intenção é criar pontes, estabelecer conexões e permitir que sua sonoridade encontre novos públicos.
A COMPLEXIDADE DA VIDA EM FORMA DE SOM
Para Tito, a música também funciona como um espelho da existência humana. Uma sinfonia pode revelar sentimentos, conflitos, alegrias, sombras, beleza e intensidade — elementos que se misturam na experiência de estar vivo.
A Sinfonia do Novo Mundo, de Antonín Dvořák, é uma das referências utilizadas por ele para traduzir essa percepção. Assim como a vida, a composição percorre diferentes atmosferas e sutilezas, mostrando que a existência é formada por múltiplas camadas.
Nesse entendimento, ouvir também é uma maneira de sentir, compreender e refletir sobre o mundo.
QUANDO JAZZ E SAMBA SE ENCONTRAM
Duas importantes expressões da cultura negra atravessam a identidade musical de Tito: samba e jazz.
Em seus arranjos e improvisos, os dois universos dialogam tanto harmonicamente quanto ritmicamente. O samba aparece como uma referência de raiz, enquanto o jazz chegou posteriormente, transformando-se em uma paixão e ampliando suas possibilidades criativas.
É desse encontro entre tradição e experimentação que surge uma parte significativa da personalidade sonora do artista.
ENTRE REALIZAÇÕES, LÁGRIMAS E CONQUISTAS
A trajetória também é feita de emoções profundas. Tito recorda com especial carinho os processos de gravação e lançamento de seus dois CDs: Ânima Trio e o trabalho solo Alegria.
Os dois projetos foram apresentados ao público em Feira de Santana, no teatro do CUCA – Centro Universitário de Cultura e Arte. Cada lançamento representou uma conquista que ultrapassou a chegada de um novo álbum às mãos do público.
Foram momentos de emoção, realização e confirmação de que cada etapa enfrentada ao longo da carreira havia valido a pena.
UMA MÚSICA QUE BUSCA TRANSFORMAR
A experiência de integrar uma banda de reggae e interpretar canções pelas quais nutre profunda admiração também ampliou sua visão sobre o papel do artista.
Tito Pereira quer mais do que produzir e subir ao palco. Deseja transformar vidas por meio da música, ao mesmo tempo em que continua encontrando nela caminhos para transformar a própria existência.
Sua trajetória revela uma arte construída sobre memória, identidade, ancestralidade, expressão e encontro. Uma produção que não se limita ao que os ouvidos captam, mas procura alcançar aquilo que permanece na alma.
Tito Pereira segue, assim, escrevendo sua história em notas, acordes, palavras e improvisos — com a Bahia como território de identidade e o mundo como horizonte.
AZENAIDA MIGUEL
Radialista | Colunista da Rádio Doinha Prata FM